A bicicleta não é apenas uma ferramenta de transporte, mas um meio de emancipação, uma arma de libertação. Liberta o espirito e o corpo das inquietudes morais e das doenças físicas do mundo moderno, da ostentação, da convenção e da hipocrisia aonde a aparência é tudo, mas não somos nada. By Paul de Vivie



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Crônica de uma expedição velocipédica às Colônias de São José

Primeiro pedal noturno, fiz o convite ao Marlon no estilo seculo XIX: 

" Prezado e Estimado Amigo,

Espero que esta missiva o encontre em pleno gozo de saúde e de excelentes ânimos.

Dirijo-me a vossa senhoria para propor um entretenimento de natureza distinta e revigorante. Com o cair do crepúsculo, quando as luzes da cidade começam a cintilar, desejo realizar uma excursão sobre os nossos velocípedes, aproveitando o frescor da brisa noturna que tanto beneficia o espírito.

Para tal empreitada, sugiro que nos encontremos pontualmente às dezenove horas e trinta minutos  do dia 22 de janeiro, junto ao suntuoso estabelecimento da Loja Havan, cuja arquitetura certamente servirá de farol para o nosso ponto de partida.

Seria uma honra imensa contar com a vossa companhia para desbravarmos as vias sob o manto da noite. Peço a gentileza de confirmar vossa disposição para tal jornada, a fim de que eu possa preparar meu espírito (e minha montaria) para o encontro.

Subscrevo-me com a mais alta estima e consideração,

Seu fiel amigo,

Dagu

Eis que ele me responde: 

Prezado e Estimado Amigo,

Recebi vossa missiva com imenso contentamento e agradeço pelas palavras tão cordiais e pelo convite tão singular. A sua prosa, além de cativante, soube despertar em mim o desejo de unir-me a tal aventura ciclística sob as estrelas.

Confirmo, com entusiasmo renovado, que estarei presente no ponto de encontro indicado — junto à imponente Loja Havan — no dia 22 de janeiro, pontualmente às dezenove horas e trinta minutos, munido de meu velocípede e em pleno gozo de ânimo e disposição.

Agradeço pela ideia revigorante e pela oportunidade de compartilhar a brisa noturna e as luzes da cidade em boa companhia. Que esta jornada sobre duas rodas seja tão agradável para o espírito quanto promete ser para o corpo.

Conto os minutos até nosso encontro e subscrevo-me com igual estima e consideração.

Até breve,

Seu amigo e companheiro de pedaladas,

Marlon

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Pois bem, caros leitores, após tal troca de gentilezas e o selar de nosso compromisso, partimos enfim para a execução da jornada. O que se segue é a crônica fidedigna dos fatos ocorridos sob o manto da noite:

É com o espírito ainda imbuído das brisas da serra que passo a relatar a jornada empreendida na última quinta-feira. O firmamento apresentava-se límpido e as massas de ar, embora estáticas, carregavam o prenúncio de um rigor gélido. Ao aportar pontualmente no local aprazado — a imponente edificação da Havan —, vi-me obrigado a trajar minha túnica protetora contra o vento, a fim de resguardar o brio e o calor do corpo.

O início de nossa marcha deu-se sob auspícios de tranquilidade. Todavia, ao adentrarmos os domínios das Colônias de São José, a natureza do solo exigiu maior destreza de nossos músculos. Enfrentamos um misto de paralelepípedos ancestrais e estradas de saibro, onde nossos velocípedes pareciam travar um diálogo ruidoso com a terra.

No ápice de nossa travessia, o destino pregou-nos uma peça: a montaria mecânica do estimado Cavalheiro Marlon sofreu uma avaria em seu pneumático. Longe de ser um infortúnio, tal pausa serviu-nos para uma proveitosa e amena prosa à luz das lanternas, enquanto os reparos eram executados com a perícia necessária.

Retomada a jornada, as aclives desafiaram nossa resistência, mas a glória aguardava-nos no Portal das Colônias. Ali, sob o manto da noite, selamos o êxito de nossa empreitada com a promessa solene de que tais incursões — sejam sob o luar ou sob o sol do fim de semana — tornem-se hábito frequente em nossas agendas.

Regressei ao lar com a alma lavada e a certeza de que a melhor forma de conhecer nosso "quintal" é através do suor e da boa companhia.




2 comentários:

  1. Estimado amigo

    Em meio à prosa do século, em que as palavras ainda se vestem de respeito e a alma se derrama em tinta, dirijo-me a V. Sa., movido pelo mais vivo sentimento de gratidão, para recordar a nobre companhia que me prestou na última quinta-feira à noite.

    A vossa presença, meu caro amigo, foi o mais fino condimento daquela aventura ciclística. A conversa fluía, entrecortada pelo silvo do vento e pelo ritmo dos pedais, tratando de assuntos leves e outros mais profundos, como convém a uma amizade verdadeira. Cada subida foi menos penosa, cada descida mais jubilosa, e cada momento de pausa, para contemplar a vastidão sob o manto estrelado, ganhou um brilho singular por ser compartilhado convosco.

    Que a Providência nos conceda muitos outros pedalares, saúde para as pernas e serenidade para a alma.

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  2. Prezado Marlon,

    Retribuo vossas gentis palavras com o mesmo espírito de camaradagem. Saiba que a satisfação foi mútua, e o valor de tal jornada reside, de fato, na qualidade da companhia.

    Que as próximas expedições nos encontrem com igual disposição. Até o próximo toque de partida!

    Vosso amigo e servidor,

    Dagu

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